_comunismo da forma  
 

Projeto Comunismo da Forma  

Comunismo da Forma:
Som + Imagem + Tempo - A Estratégia do Vídeo Musical

Por Marcelo Rezende e Fernando Oliva

Em Postproduction1, o crítico e curador francês Nicolas Bourriaud define o Comunismo Formal como um conceito capaz de resumir atitudes e ações possíveis para a arte e os artistas em um novo e acelerado contexto histórico: este, agora, no qual o imenso repertório de imagens, dados, construções, produção, estados emocionais e experiências científicas, psicanalíticas e estéticas formado nas sociedades industrializadas se encontra à disposição dos criadores como se estes estivessem diante de uma imensa “biblioteca”, eternamente aberta e disponibilizando um material infinito para invenção e o comentário.

A idéia de apropriação, colagem, assemblage – como técnica, citação ou via para o pastiche –, é uma constante nos processos de vanguarda estabelecidos na primeira metade do século 20. Mas não se trata, com o Comunismo Formal, de retorno ou recuperação de um procedimento utópico ou revolucionário do passado. Sua função é sobretudo estratégica: criar um campo no qual o artista e o espectador possam habitar um espaço de comunicação, onde uma constante conversação deve acontecer; uma que é ao mesmo tempo crítica e sintoma das relações de consumo, produção e serviços gerados no capitalismo tardio, determinado pela abundância material, ansiedade, desarranjo e nostalgia.

Neste contexto, o que o artista procura é um “desvio” no qual todo o material disposto pela “biblioteca” possa ser alterado e retomado a fim de que novos significados possam nascer, significados que só devem de fato existir a partir da participação. Isso porque o espectador contém nele o segundo elemento essencial para que essa arte possa acontecer: se o artista toma a “biblioteca”, é no espectador que reside a memória, as referências sentimentais e a subjetividade que encontrará a do artista a fim de “recarregá-la” com uma energia nova, gerada a partir da aceitação, recusa ou indiferença nascida a partir desse olhar do espectador diante de elementos da “biblioteca” dispostos em nova ordem.

Como já determinava Guy Debord em 1956, exigindo o total engajamento do artista diante do cenário que se formava a partir da industrialização e da sedimentação da sociedade de massa: “No seu conjunto, a herança literária e artística da humanidade deve ser utilizada para fins de propaganda engajada (…) Todos os elementos, apanhados não importa onde, podem ser objetos de novas leituras (…) Tudo pode servir. Cada um pode decidir se uma obra pode não apenas ser corrigida ou composta de diferentes fragmentos de obras obsoletas para se criar uma nova, mas também mudar o sentido desses fragmentos a fim de alterar de todas as maneiras tidas como boas aquilo que os imbecis insistem em chamar de citação”.

O vídeo musical

Nesse quadro, um dos territórios privilegiados para o uso da “biblioteca” nos últimos 20 anos tem sido o da indústria de vídeos musicais, os videoclipes. Criados como veículo de propaganda para um dos grandes setores da indústria do entretenimento, os clipes passaram rapidamente do estado neutro para o autoral. Como uma mídia “bastarda” da TV e do cinema, os vídeos musicais se tornaram algo mais do que um gênero: como resultado de sua velocidade de produção e exibição – e o fato de ser um produto de consumo gerado e exigido pela indústria – passaram a ser habitados por artistas capazes de vencer as limitações da mídia, a fim de criar não apenas mais produtos, mas obras, aptas a estar na posição pensada por Debord, a partir da expressão criada por Bourriaud. O clipe, com sua ausência de hierarquia entre o velho e novo, o tecnológico e artesanal, coloca em movimento todo o repertório da biblioteca que, ao encontrar a memória, a nostalgia e os estados emocionais dos espectadores, ganha um novo corpo, um novo significado e um novo contexto a partir de seus três elementos formadores: o som, a imagem e o tempo, criando na cultura de massa e para a cultura de massa. Em um clipe, cada imagem, fotograma, cena, tem uma existência ao mesmo tempo independente e formativa, uma situação que não é jamais alterada pelas outras imagens, fotogramas e cenas que seguem ao lado, e que compõem o vídeo musical. “Nos vídeos musicais, o que está escondido e o que é revelado serve para encorajar múltiplas visões ao engajar o espectador em um processo de reconstrução, interpolando ou extrapolando a história contida nas cenas que estão realmente visíveis.”

A exposição

A exposição Comunismo da Forma: Som + Imagem + Tempo - A Estratégia do Vídeo Musical propõe uma investigação das possibilidades apresentadas pelo formato do vídeo musical a partir de seu lugar privilegiado, ao mesmo tempo produtor e consequência do atual momento histórico nas sociedades de consumo – o hipercapitalismo. Trata-se de um espaço de liberdade para o uso incessante da “biblioteca”, capaz – em razão de seus novos meios de exibição, especialmente o fenômeno You Tube – de manter uma relação emocional com espectador, que forma e se alimenta do imaginário proposto por esta mídia.

Sete pontos

1º - Os artistas envolvidos no projeto da exposição tem a possibilidade de se engajar em uma pesquisa em torno não apenas do clipe como mídia (seu aspecto formal), mas sobretudo em torno de seu contexto histórico, sua situação na indústria e os componentes que o formam: o som, a imagem, o tempo – e a relação com o repertório emocional e a memória do espectador. Isso significa a possibilidade de propostas que possam criticar o suporte (o vídeo), comentar o circuito de distribuição e exibição, ou propor reflexões sobre a indústria de entretenimento.

2º - O espectador é parte integrante da obra. E isso não significa apenas uma ação “interativa”. A obra só pode existir a partir dessa conversa/confronto com o repertório mental, cultural e emocional do espectador.

3º - Um vídeo musical existe a partir de seu comentário visual sobre a produção musical “pop”. Ele se realiza a partir desses diferentes gêneros musicais que são feitos para o consumo de massa. Um clipe não pode existir sem a presença da música pop.

4º - Um clipe é dependente de sua duração. Ele não é um trailer, um filme publicitário ou um curta-metragem. Ele pode ser tudo isso, porém resumido em poucos minutos. Sua curta duração está na base da relação que impõe ao olhar e à memória do espectador.

5º - A exposição, em sua proposta curatorial, não se pretende um apanhado histórico sobre o clipe. Busca um comentário sobre suas possibilidades no campo da criação.

6º - Não se trata mais de elaborar um discurso teórico ou curatorial em torno do vídeo musical como expressão artística. O clipe se apresenta agora como uma real forma de expressão dentro da indústria, se aproximando muito do cinema em sua primeira fase.

7º - O uso da “biblioteca” é livre, mas indispensável.


1 Postproduction. Bourriaud, Nicolas (Les Presses du Réel, Paris, 2003)
2 Mode d’ Emploi du Détournement. Debord, Guy (Les Lévres Nues, Paris, 1956).   Bourriaud usa a passagem desse artigo de Debord a fim de mostrar, também como esse conteúdo revolucionário – a “propaganda engajada” visando a desvalorização e a destruição da biblioteca – deu lugar a uma aceitação e convivência com a mesma.
3 Experiencing Music Video - Aesthetics and Cultural Context. Vernallis, Carol (Columbia University Press, New York, 2004)


 


"Comunismo da Forma" é uma exposição que acontece de 20 de julho a 4 agosto na Galeria Vermelho, em São Paulo. Sua proposta é investigar as possibilidades estéticas e políticas criadas nas relações entre música e imagem no território da arte a partir de um particular formato: o videoclip.

comunismodaforma@gmail.com





arquivo

XML/RSS Feed